30.5.08

Teremos tido o que alguma vez julgamos ter perdido?
Quisemos a presença permanente mas nunca a tivemos
Nalgum momento feliz nalgum lugar propício
Amámos a integridade de um corpo como uma chama de universo
Mas esse momento durou com a verde intensidade de um
(bosque
E foi como se tocássemos o tronco de uma estrela
Em breve se apagou o lume que dançava em flutuantes corpos
No entanto se a cinza se acendia
Com a pontiaguda e frágil boca de um desejo obstinado
O mundo podia ondular como um harmónio verde
Em que as sombras e o sol e o mar ao fundo
Constituíam o lugar privilegiado de um sentir
Que se inebriava com as mescladas manchas
Que a luz e a penumbra espalhavam sobre os cavalos
Que pastavam tranquilamente entre os castanheiros
Era uma visão simples mas uma visão total
Porque as figuras tinham o timbre tranquilo do silêncio
Nós explorámos estas zonas de respiração plácida
E penetrámos às vezes numa clareira entre giestas vermelhas
Com a sensação de que podíamos tocar o ouvido de veludo do
(mundo
Mas isto tudo eram explorações intervalares
Que não anulavam o que sobrava sempre
Porque era o inexorável depois o incessante efectivo
E agora perguntamos
Como pode a vida ter passado como uma nuvem obscura
E continuar a passar
Como se não fôssemos mais do que folhas de cinza
Procurámos estar onde estávamos
Mas era tão difícil manter em equilíbrio a coluna do silêncio
Tão desejável no entanto como entrar
No interior de um ovo de veludo
E hoje entre as violentas garras
Que pela sua exacerbação parecem derradeiras
Ainda procuramos a sabedoria de estar
Sem qualquer esperança
Esperando no entanto a delicadeza extrema
Dessa presença aérea que não é nada
Porque é simplesmente a ilusão do mundo liberta na visão do
(desejo


António Ramos Rosa " Deambulações oblíquas"

25.5.08

A vida

A vida, as suas perdas e os seus ganhos, a sua
Mais que perfeita imprecisão, os dias que contam
Quando não se espera, o atraso na preocupação
Dos teus olhos, e as nuvens que caíram
Mais depressa, nessa tarde, o círculo das relações
A abrir-se para dentro e para fora
Dos sentidos que nada têm a ver com círculos
Quadrados, rectângulos, nas linhas
Rectas e paralelas que se cruzam com as
Linhas da mão;


A vida que traz consigo as emoções e os acasos,
A luz inexorável das profecias que nunca se realizaram
E dos encontros que sempre se soube que
Se iriam dar, mesmo que nunca se soubesse com
Quem e onde, nem quando; essa vida que leva consigo
O rosto sonhado numa hesitação de madrugada,
Sob a luz indecisa que apenas mostra
As paredes nuas de manchas húmidas
No gesso da memória;

A vida feita dos seus
Corpos obscuros e das suas palavras
Próximas.

Nuno Júdice " Teoria Geral do Sentimento"

13.5.08

Quero fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática.Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria. Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas. Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá tudo bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? O amor é uma coisa, a vida é outra.· O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não dá para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não.

Elogio do Amor - Miguel Esteves Cardoso

9.5.08

Deus escreve direito


Deus escreve direito por linhas tortas
E a vida não vive em linha recta
Em cada célula do homem estão inscritas
A cor dos olhos e a argúcia do olhar
O desenho dos ossos e o contorno da boca
Por isso te olhas ao espelho:
E no espelho te buscas para te reconhecer
Porém em cada célula desde o início
Foi inscrito o signo veemente da tua liberdade
Pois foste criado e tens de ser real
Por isso não percas nunca teu fervor mais austero
Tua exigência de ti e por entre
Espelhos deformados e desastres e desvios
Nem um momento só podes perder
A linha musical do encantamento
Que é o teu sol tua luz alimento


Sophia de Mello B. "O búzio de cós e outros poemas"

6.5.08



E hoje quem sou eu?
You don´t have to worry about me...
Sory.. I´ll do it again

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos.
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentando
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar extático da aurora.

Vinicius de Moraes
Gosto de coisas tristes mas contentes. Não disse isto, desculpa, o que quero dizer é que gosto de coisas felizes, mas tristes. Ora, “a mesma coisa”, dirás! Talvez, mas o que te quero revelar é que sinto que sempre gostei de chorar quando estou alegre. A tristeza mais bela de todas é a felicidade com lágrimas nos olhos.
( Fernando Alvim)

4.5.08

Uma das minhas preocupações constantes é o compreender como é que outra gente existe, como é que há almas que não sejam a minha, consciências estranhas à minha consciência, que, por ser consciência, me parece ser a única. Compreendo bem que o homem que está diante de mim, e me fala com palavras iguais às minhas, e me fez gestos que são como eu faço ou poderia fazer, seja de algum modo meu semelhante. O mesmo,porém, me sucede com as gravuras que sonho das ilustrações, com as personagens que vejo dos romances, com as pessoas dramáticas que no palco passam através dos actores que figuram.

Ninguém, suponho,admite verdadeiramente a existência real de outra pessoa. Pode conceder que essa pessoa seja viva, que sinta e pense como ele; mas haverá sempre um elemento anónimo de diferença, uma desvantagem materializada. Há figuras dos tempos idos,imagens espíritos em livros, que são para nós realidades maiores que aquelas indiferenças incarnadas que falam connosco por cima dos balcões , ou nos olham por acaso nos eléctricos, ou nos roçam,transeuntes, no acaso morto das ruas. Os outros não são para nós mais que paisagem, e, quase sempre, paisagem invisível de rua conhecida.

Tenho por minhas, com maior parentesco intimidade, certas figuras que estão escritas nos livros, certas imagens que conheci de estampas, do que muitas pessoas, a que chamam reais, que são dessa inutilidade metafísica chamada carne e osso. E “ carne e osso”, de facto, as descreve bem; parecem coisas cortadas postas no exterior marmóreo de um talho, mortes sangrando como vidas, pernas e costelas de Destino.

Não me envergonho de sentir assim porque já vi que todos sentem assim. O que parece haver de desprezo entre homem e homem, de indiferente que permite que se mate gente sem que se sinta que se mate, como entre os soldados, é que ninguém presta a devida atenção ao facto, parece que abstruso, de que os outros são almas também.


Livro Do Desassossego

1.5.08

Amália - Abandono

David Mourão Ferreira neste poema fez homenagem aos presos politicos do anterior Regime Português, que eram deportados para o campo do Tarrafal nas Ilhas de CaboVerde, Alaín Oulman, fez esta música tão envolvente que até uma pessoa se arrepia ao uvir a Grande Amália, em uma das suas mais belas criações.

27.4.08


Até que a morte nos separe*

22.4.08




Não me procures
Não sei qual o meu destino
Procuro a imensidão deste mundo tão pequeno
Sou uma rebelde em mim, em nada e em ninguém
Tenho como meta o infinito o nada o absoluto a certeza do ser quem nunca fui
Quero fazer do palco a minha vida
Ser uma personagem diferente todos os dias
Rir,Chorar,Gritar sem medo
Apregoar a lenda mais bela
Cantar a canção mais absurda
Não me condenes por ser assim
Não quero um mundo igual a toda a gente
Quero ser livre e voar para bem longe daqui
Para um lugar onde não me encontres
Para um lugar infinito onde o presente e o futuro nunca exista
Quero ser assim em mim
Deixa-me ser feliz

16.4.08

CARTA A MEUS FILHOS sobre os fuzilamentos de Goya

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente â secular justiça,
para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.»
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de urna classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadela de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de té-1a.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém
está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga
- não hão-de ser em vão. Confesso que
multas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E. por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

Jorge de Sena

10.4.08

Porcupine Tree Don't Hate Me


A light snow is falling on London

All sign of the living has gone

The train pulls into the stations

And no-one gets off and no-one gets on


Don't hate me

I'm not special like you

I'm tired and

I'm so alone

Don't fight me

I know you'll never care

Can I call you on the telephone, now and then?


One light burns in a window

It guides all the shadows below

Inside the ghost of a parting

And no-one is left, just the cigarette smoke

30.3.08


Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu and
oa limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco.
Mário Cesariny

27.3.08

Dia Mundial do Teatro

Existem várias hipóteses sobre as origens do teatro, mas aquela que mais questiona o meu espírito tem a forma de uma fábula:

Uma noite, em tempos imemoriais, um grupo de homens tinha-se reunido numa pedreira para se aquecer à volta de uma fogueira a contar histórias. Quando de repente, um deles teve a ideia de se levantar e usar a sua própria sombra para ilustrar a sua história. Socorrendo-se da luz das chamas, fez aparecer nas paredes da pedreira figuras maiores do que o natural. Os outros, deslumbrados, foram reconhecendo o forte e o fraco, o opressor e o oprimido, o deus e o mortal.

No nosso tempo, a luz dos projectores substitui a luz da fogueira original e a maquinaria de cena as paredes da pedreira. E com todo o respeito por certos puristas, esta fábula recorda-nos que a tecnologia está na verdadeira origem do teatro, que não deve ser considerada como uma ameaça, mas como um elemento congregador.

A sobrevivência da arte teatral depende da sua capacidade de reinventar-se, utilizando novas ferramentas e novas linguagens. Caso contrario, como poderia o teatro continuar a ser o testemunho dos grandes embates da sua época e promover a compreensão entre os povos, se ele mesmo não desse prova de abertura? Como poderia orgulhar-se de oferecer soluções para os problemas de intolerância, de exclusão e de racismo, se, na sua própria prática, se recusasse à mestiçagem e à integração?

Para representar o mundo com toda a sua complexidade, o artista deve propor formas e ideias novas e mostrar confiança na inteligência do espectador capaz de reconhecer, ele próprio, a silhueta da humanidade nesse jogo perpétuo de luz e sombra.


É verdade que, por brincar demais com o fogo, o homem corre o risco de se queimar, mas pode também ter a possibilidade de deslumbrar e de iluminar.



ROBERT LEPAGE
QUEBEC

26.3.08

Amnesty International | Your signature is more powerful than

Vale mesmo a pena pensar nisto

Basta de indiferença

16.3.08

O melhor será não voltarmos a ver-nos. O tempo prega-nos constantes partidas e chegadas. Tu chegaste quando julguei que mais ninguém chegaria.
Com o meu pequeno coração no centro do meu corpo líquido fui perdendo qualquer esperança.
Uma a uma.
Na vida que vai sucedendo aos dias.
Na desilusão que tudo vai apagando e assim o merece.
Mesmo na vitória há um pouco de fim, porque toda a vitória é efémera e não volta.
Vi-te a sair. Disse o teu nome.
Não te viraste.Talvez não fosses tu.

Pedro Paixão " Ladrão de Fogo"

11.3.08


Tudo o que sagrado existe, tudo o que de profano me abraça, é apenas amor sem dor,dor sem amor.Hipnotizado pelos olhos da escuridão, quero procurar a penumbra e conhecer o sonho da vida. A minha alma leva-me para demasiado longe,apodreço dentro do meu próprio caixão, o céu puro arde e une-se ao inferno. Um estranho circuito nasce e cobre a Humanidade.


Daniel Sampaio "Lições do Abismo"

23.2.08






"Não hei-de morrer sem conhecer a cor da liberdade" (Jorge de Sena)

20.2.08

18.2.08

Mudar


Hoje é um dia especial...

Hoje alguém teve paciência para dispender do seu tempo e me ensinar uma verdadeira lição de vida que já não ouvia à muito.

Por ti eu juro que vou tentar e ficarás orgulhoso de mim.

Espero que este dia seja um dia a mais nas nossas vidas.

Quero que me digas que valeu a pena...








(Basta esquecer que te conheço, não me lembrar de

nada que me faça sofrer)


22.1.08

14.1.08



Dying Slowly

28.12.07

The Last Song I´m Waisting on you

Sparkling grey,
Through my own veins.
Any more than a whisper,
Any sudden movement of my heart.
And I know, I know I'll have to watch them pass away
Just get through this day
Give up your way, you could be anything,
Give up my way, and lose myself, not today
That's too much guilt to pay
Sickened in the sun
You dare tell me you love me
But you held me down and screamed you wanted me to die
Honey you know, you know I'd never hurt you that way
You're just so pretty in your pain
Give up my way, and I could be anything
I'll make my own way
Without your senseless hate... hate... hate... hate.
So run, run, run
And hate me, if it feels good.
I can't hear your screams anymore
You lied to me
But I'm older now
And I'm not buying baby
Demanding my response
Don't bother breaking the door down
I found my way out
And you'll never hurt me again.
Evanescence
your eyes are so blue

20.12.07

Separação do príncipe e da escrava

Não tem de ser triste. Às vezes, o tempo parte. Nós
Vemo-lo ao longe, afasta-se devagar, e não tem de ser triste.



Hoje, eu caminho na direcção do passado. Tu caminhas para
O futuro. A noite. Depois desta noite, para mim, será ontem.



Depois desta noite, tu estarás em amanhã. Saberemos que haverá
Muitas noites. Haverá dias, meses e anos que atravessaremos.


Atravessei muitos anos, direi. Atravessarás muitos anos, dirás.
Sabemos que o passado e o futuro são caminhos que se cruzam


Não tem de ser triste. Talvez eu te encontre num dia em que eras
Muito nova, uma criança. Talvez eu sorria. Talvez tu sorrias.



Talvez tu me encontres num dia em que eu seja já muito velho,
Sem esperança de te voltar a ver. Talvez eu sorria. Talvez tu sorrias.



Não tem de ser triste. Vamos separar-nos agora. Este instante,
agora, será o teu passado. Este instante, agora, será o meu futuro.



José Luís Peixoto " A casa, a escuridão"

12.12.07

Why Do I Desire

Porquê desejo
O que não preciso?
Porquê busca a minha alma, como o fogo,
Ou uma abstracta ansia incandescente,
Tudo o que fica mais além?
Porquê, senao por
Ser uma alma?
Quem pode conhecer a causa
Quando em sua totalidade jaz
Escondida em leis?
Que isso nao conte.
O que conta é a dor
E a mais intima agitação
De suspeitarmos
Que os nossos desejos são inalcançáveis.


Poemas Ingleses - Pessoa Inedito
Fernando Pessoa

2.12.07






simplemente linda para não deixar de partilhar...
dedicada a alguém
não me peças nada... estou destroçada..cansada...triste....sem ti
AMO-TE

25.11.07

Um regresso de viagem


Ao fim de umas horas de estrada digo “amo-te”,
e tu, com a mão esquerda, apoias o corpo ao muro,
com a mão direita seguras-me o ombro. Eu
concluiria desse facto que a minha própria vida
se iria passar sem direcção certa,
mas não foi assim, ou por outra,
tenho conhecido os aspectos sucessivos
de um problema então iniciado.
Por fim deixaste-me em frente ao café,
compraste cigarros ao balcão
apanhaste o autocarro para casa.
Eu, voltando ao cais, passei o resto da tarde
a ver os pescadores, no intervalo da partida,
levantarem do mar as grandes âncoras esquizofrénicas.

Nuno Júdice " Obra Poética"


15.11.07

Gabriel Garcia Marquez retirou-se da vida pública por razões de saúde: cancro linfático. Agora - parece que é cada vez mais grave - enviou uma carta de despedida aos seus amigos a qual, graças à Internet, está a ser difundida por todo o Mundo. A sua leitura é recomendada, porque se trata de um texto verdadeiramente comovedor escrito por um dos escritores mais brilhantes de todos os tempos *


" Se por um instante Deus se esquecesse de que sou uma marioneta de trapo e me oferecesse mais um pouco de vida, não diria tudo o que penso, mas pensaria tudo o que digo.
Daria valor às coisas, não pelo que valem, mas pelo que significam.
Dormiria pouco, sonharia mais, entendo que por cada minuto que fechamos os olhos, perdemos sessenta segundos de luz.
Andaria quando os outros param, acordaria quando os outros dormem.
Ouviria quando os outros falam, e como desfrutaria de um bom gelado de chocolate!
Se Deus me oferecesse um pouco de vida, vestir-me-ia de forma simples, deixando a descoberto, não apenas o meu corpo, mas também a minha alma.
Meu Deus, se eu tivesse um coração, escreveria o meu ódio sobre o gelo e esperava que nascesse o sol.
Pintaria com um sonho de Van Gogh sobre as estrelas de um poema de Benedetti, e uma canção de Serrat seria a serenata que ofereceria à lua.
Regaria as rosas com as minhas lágrimas para sentir a dor dos seus espinhos e o beijo encarnado das suas pétalas...
Meu Deus, se eu tivesse um pouco de vida... Não deixaria passar um só dia sem dizer às pessoas de quem gosto que gosto delas.
Convenceria cada mulher ou homem que é o meu favorito e viveria apaixonado pelo amor.
Aos homens provar-lhes-ia como estão equivocados ao pensar que deixam de se apaixonar quando envelhecem, sem saberem que envelhecem quando deixam de se apaixonar!
A uma criança, dar-lhe-ia asas, mas teria que aprender a voar sozinha.
Aos velhos, ensinar-lhes-ia que a morte não chega com a velhice, mas sim com o esquecimento.
Tantas coisas aprendi com vocês, os homens... Aprendi que todo o mundo quer viver em cima da montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subir a encosta.
Aprendi que quando um recém-nascido aperta com a sua pequena mão, pela primeira vez, o dedo do seu pai, o tem agarrado para sempre.
Aprendi que um homem só tem direito a olhar outro de cima para baixo quando vai ajudá-lo a levantar-se.
São tantas as coisas que pude aprender com vocês, mas não me hão-de servir realmente de muito, porque quando me guardarem dentro dessa maleta, infelizmente estarei a morrer..."
Gabriel Garcia Marquez*

8.11.07




Something`s got you and its not me...

23.10.07

Preste atenção......leia bem devagarinho!!!! Vale a pena!!!

VOCÊ: Pai nosso que estais no céu...
DEUS: Sim? Estou aqui...
VOCÊ: Por favor, não me interrompa, estou rezando!
DEUS: Mas você me chamou!
VOCÊ: Chamei? Eu não chamei ninguém. Estou rezando.... Pai nosso que estais no céu...
DEUS: Ai, você fez de novo.
VOCÊ: Fiz o que?
DEUS: Me chamou! Você disse: Pai nosso que estais no céu. Estou aqui. Como é que posso ajudá-lo?
VOCÊ: Mas eu não quis dizer isso. É que estou rezando. Rezo o Pai Nosso todos os dias, me sinto bem rezando assim. É como se fosse um dever. E não me sinto bem até cumprí-lo...
DEUS: Mas como podes dizer Pai Nosso, sem lembrar que todos são seus irmãos, como podes dizer que estais no céu, se você não sabe que o céu é a paz, que o céu é amor a todos?
VOCÊ: É, realmente ainda não havia pensado nisso.
DEUS: Mas prossiga sua oração.
VOCÊ: Santificado seja o Vosso nome...
DEUS: Espera ai! O que você quer dizer com isso?
VOCÊ: Quero dizer... quer dizer, é... sei lá o que significa. Como é que vou saber? Faz parte da oração, só isso!
DEUS: Santificado significa digno de respeito, Santo, Sagrado.
VOCÊ: Agora entendi. Mas nunca havia pensado no sentido dessa palavra SANTIFICADO. "Venha a nós o vosso reino, seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu..."
DEUS: Esta falando sério?
VOCÊ: Claro! Por que não?
DEUS: E o que você faz para que isso aconteça?
VOCÊ: O que faço? Nada! É que faz parte da oração, além disso seria bom que o Senhor tivesse um controle de tudo o que acontecesse no céu e na terra também.
DEUS: Tenho controle sobre você?
VOCÊ: Bem, eu freqüento a igreja!
DEUS: Não foi isso que Eu perguntei! Que tal o jeito que você trata os seus irmãos, a maneira com que você gasta o seu dinheiro, o muito tempo que você dá a televisão, as propagandas que você corre atrás e o pouco tempo que você dedica a Mim?
VOCÊ: Por favor. Pare de criticar!
DEUS: Desculpe. Pensei que você estava pedindo para que fosse feita a minha vontade. Se isso for acontecer tem que ser com aqueles que rezam, mas que aceitam a minha vontade, o frio, o sol, a chuva, a natureza, a comunidade.
VOCÊ: Esta certo, tens razão. Acho que nunca aceito a sua vontade, pois reclamo de tudo: se manda chuva, peço sol, se manda o sol reclamo do calor, se manda frio, continuo reclamando, se estou doente, peço saúde, mas não cuido dela, deixo de me alimentar ou como muito...
DEUS: Ótimo reconhecer tudo isso. Vamos trabalhar juntos Eu e Você, mas olha, vamos ter vitórias e derrotas. Eu estou gostando dessa nova atitude sua.
VOCÊ: Olha Senhor, preciso terminar agora. Esta oração está demorando muito mais do que costuma ser. Vou continuar: ... "o pão nosso de cada dia nos dai hoje..."
DEUS: Pare ai! Você esta me pedindo pão material? Não só de pão vive o homem, mas também da minha palavra. Quando me pedires o pão, lembre-se daqueles que nem conhecem pão. Pode pedir-me o que quiser, desde que me veja como um Pai amoroso! Eu estou interessado na próxima parte de sua oração. Continue!
VOCÊ: "Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido..."
DEUS: E o seu irmão desprezado?
VOCÊ: Está vendo? Olhe Senhor, ele já criticou várias vezes e não era verdade o que dizia. Agora não consigo perdoar. Preciso me vingar.
DEUS: Mas, e a sua oração? O que quer dizer sua oração? Você me chamou, e eu estou aqui, quero que saias daqui transfigurado, estou gostando de você ser honesto. Mas não é bom carregar o peso da ira dentro de você, não acha?
VOCÊ: Acho que iria me sentir melhor se me vingasse!
DEUS: Não vai não! Vai se sentir pior. A vingança não é tão doce quanto parece. Pense na tristeza que me causaria, pense na sua tristeza agora. Eu posso mudar tudo para você. Basta você querer.
VOCÊ: Pode? Mas como?
DEUS: Perdoe seu irmão, Eu perdoarei você e te aliviarei.
VOCÊ: Mas Senhor, eu não posso perdoá-lo.
DEUS: Então não me peças perdão também!
VOCÊ: Mais uma vez está certo! Mais só quero vingar-me, quero a paz com o Senhor. Esta bem, esta bem, eu perdôo a todos, mas ajude-me Senhor. Mostre-me o caminho certo para mim e meus inimigos.
DEUS: Isto que você pede é maravilhoso, estou muito feliz com você. E você, como está se sentindo?
VOCÊ: Bem, muito bem mesmo! Para falar a verdade, nunca havia me sentido assim! É tão bom falar com Deus.
DEUS: Ainda não terminamos a oração. Prossiga...
VOCÊ: "E não deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal..."
DEUS: Ótimo, vou fazer justamente isso, mas não se ponha em situações onde possa ser tentado.
VOCÊ: O que quer dizer com isso?
DEUS: Deixe de andar na companhia de pessoas que o levam a participar de coisas sujas, intrigas, fofocas. Abandone a maldade, o ódio. Isso tudo vai levá-lo para o caminho errado. Não use tudo isso como saída de emergência!
VOCÊ: Não estou entendendo!
DEUS: Claro que entende! Você já fez isso comigo várias vezes. Entra no erro, depois corre a me pedir socorro.
VOCÊ: Estou com muita vergonha, Perdoe-me Senhor!
DEUS: Claro que perdôo! Sempre perdôo a quem esta disposto a perdoar também, mas não esqueça, quando me chamar, lembre-se de nossa conversa, medite cada palavra que fala! Termine sua oração.
VOCÊ: Terminar? Ah, sim, "AMÉM!"
DEUS: O que quer dizer AMÉM?
VOCÊ: Não sei. É o final da oração.
DEUS: Você só deve dizer AMÉM quando aceita dizer tudo o que eu quero, quando concorda com minha vontade, quando segue os meus mandamentos, porque AMÉM! quer dizer, ASSIM SEJA, concordo com tudo que rezei.
VOCÊ: Senhor, obrigado por ensinar-me esta oração e agora obrigado por fazer-me entendê-la.
DEUS: Eu amo cada um dos meus filhos, amo mais ainda aqueles que querem sair do erro, aqueles que querem ser livres do pecado. Abençôo-te e fica com minha paz!
VOCÊ: Obrigado Senhor! Estou muito feliz em saber que és meu amigo

8.10.07



aconselho a ouvir...
está de se lhe tirar o chapéu

2.10.07

Boa Sorte / Good Luck


É só isso
Não tem mais jeito
Acabou, boa sorte

Não tenho o que dizer
São só palavras
E o que eu sinto
Não mudará

Tudo o que quer me dar
É demais
É pesado
Não há paz

Tudo o que quer de mim
Irreais
Expectativas
Desleais

That’s it
There's no way
It's over,
Good luck

I have nothing left to say
It’s only words
And what l feel
Won’t change

Tudo
o que quer me dar / Everything you want to give me
É demais / It's too much
É pesado / It’s heavy
Não há paz / There is no peace

Tudo o que quer de mim / All you want from me
Irreais / Isn’t real
Expectativas / that Expectations
Desleais

medo, se segure
Quero que se cure
Dessa pessoa
Que o aconselha

Há um desencontro
Veja por esse
Há tantas pessoas especiais

Now even if you hold yourself
I want you to get cured
From this person
Who advises you

There is a disconnection
See through this point of view
There are so many special people in the world
So many special people in the world in the world
All you want
All you want

Tudo o que quer me dar / Everything you want to give me
É demais / It's too much
É pesado / It’s heavy
Não há paz / There's no peace

Tudo o que quer de mim / All you want from me
Irreais / isn’t real
Expectativas / that Expectations
Desleais


Vanessa da Mata/ Ben Harper

27.9.07


E mesmo sem te ver

Acho até que estou indo bem

Só apareço, por assim dizer

Quando convém aparecer

Ou quando quero
Quando quero

Desenho toda a calçada

Acaba o giz, tem tijolo de construção

Eu rabisco o sol que a chuva apagou

Quero que saibas que me lembro

Queria até que pudesses me ver

És parte ainda do que me faz forte

Pra ser honesto

Só um pouquinho infeliz

Mas tudo bem

Tudo bem, tudo bem...

Lá vem, lá vem, lá vem

De novo

Acho que estou gostando de alguém

E é de ti que não me esquecerei

Está tudo bem, tudo bem...

26.9.07


Não me arrependo das horas que perdi a esperar-te
Quando ainda havia a esperança. A esperança que
Havia ainda quando, a esperar-te, perdi horas de que
Não me arrependo.

Um instante na memória de chegares é mais valioso
Do que jardins. Do que montanhas. Do que anos de
Tempo.

Arrependo-me de ficar ao sol, de sorrir, de esquecer
Que devagar passam os dias. Os dias passam devagar,
Esquecendo-se de sorrir ao sol e de ficar onde me
Arrependo.
José Luís Peixoto "A casa, a escuridão"

1.9.07

Quanto de ti, Amor...

Quanto de ti, amor, me possuiu no abraço
em que de penetrar-te me senti perdido
no ter-te para sempre -
Quanto de ter-te me possui em tudo
o que eu deseje ou veja não pensando em ti
no abraço a que me entrego -
Quanto de entrega é como um rosto aberto,
sem olhos e sem boca, só expressão dorida
de quem é como a morte -
Quanto de morte recebi de ti,
na pura perda de possuir-te em vão
de amor que nos traiu -
Quanta traição existe em possuir-se a gente
sem conhecer que o corpo não conhece
mais que o sentir-se noutro -
Quanto sentir-te e me sentires não foi
senão o encontro eterno que nenhuma imagem
jamais separará -
Quanto de separados viveremos noutros
esse momento que nos mata para
quem não nos seja e só -
Quanto de solidão é este estar-se em tudo
como na auséncia indestrutível que
nos faz ser um no outro -
Quanto de ser-se ou se não ser o outro
é para sempre a única certeza
que nos confina em vida -
Quanto de vida consumimos pura
no horror e na miséria de, possuindo, sermos
a terra que outros pisam -
Oh meu amor, de ti, por ti, e para ti,
recebo gratamente como se recebe
não a morte ou a vida, mas a descoberta
de nada haver onde um de nós não esteja.



Jorge de Sena
in Visão PerpétuaAgosto 1967
Dentro dos teus olhos, há o brilho onde nascem as respostas, mas não vou perguntar-te nada. Tenho medo de que a minha voz te faça desaparecer de novo. O silêncio é o lugar onde os nossos olhares se encontram.
Não vou perguntar-te nada.

José Luís Peixoto " Antídoto"

7.8.07

Traição

De cansado, parei – por ser humano.
Descansar um momento na subida.
Desde a pele ao tutano
Da alma,
Do mais fundo da vida,
Tudo pedia a calma
Duma pausa na curva do caminho.
Mas bebido o carinho
Duma fonte,
E vestida a frescura
Duma sombra,
Foi um cilício a mais que me picou.
Muito longe de mim, também carne humana,
Seguia a corajosa caravana
Que nenhum desespero demorou.


Miguel Torga " Cântico do Homem"
Gosto de coisas tristes mas contentes. Não disse isto, desculpa, o que quero dizer é que gosto de coisas felizes, mas tristes. Ora, “a mesma coisa”, dirás! Talvez, mas o que te quero revelar é que sinto que sempre gostei de chorar quando estou alegre. A tristeza mais bela de todas é a felicidade com lágrimas nos olhos.




A minha paixão por ti é eu ser órfão, viver num reformatório e esperar pela visita de alguém que me tire dali.
….
E mesmo quieto, estou aos saltos cá dentro quando te vejo, mesmo mudo, estou a gritar para que me leves daqui.



Fernando Alvim " Quando fugimos tu não estavas em casa"

3.5.07

Ausência

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos
(que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres
(eternamente exausto
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a
(tua voz.

Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como um nódoa do passado.
Eu deixarei...tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu,
(porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos
(no espaço

E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono
(desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos.
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar,do vento,do céu,das aves,das estrelas
Serão a tua voz presente,a tua voz ausente,a tua voz serenizada.


Vinicius de Moraes " O poeta não tem fim"

19.4.07

Hoje acordámos em sítios diferentes

Eu, no meio das ruínas que se movem, das sombras que sopram, das
almas em fuga para dentro da vida.

Tu, no meio das ruínas paradas, das sombras que já não respiram,
das almas em fuga para longe da vida.

Amanhã, sempre amanhã,tentaremos acordar no mesmo sítio de
sempre e o abismo do medo e da dor irá rir-se de nós enquanto nos
engole ou deixa passar.


Fernando Ribeiro " As feridas essenciais"

Cinco palavras Cinco pedras

Antigamente escrevia poemas compridos
Hoje tenho quatro palavras para fazer um poema
São elas: desalento prostação desolação desânimo
E ainda me esquecia de uma: desistência
Ocorreu-me antes do fecho do poema
e em parte resume o que penso da vida
passado o dia oito em cada mês
e delas vem a música precisa
para continuar.Recapitulo:
desistência desalento prostação desolação desânimo
Antigamente quando os deuses eram grandes
eu sempre dispunha de muitos versos
Hoje só tenho cinco palavras cinco pedrinhas


Ruy Belo " Todos os poemas Vol. I"

6.3.07

O inconsciente

O espectro familiar que anda comigo,
Sem que pudesse ainda ver-lhe o rosto,
Que umas vezes encaro com desgosto
E outras muitas ansioso espreito e sigo,

É um espectro mudo, grave, antigo
Que parece a conversas mal disposto...
Ante esse vulto, ascélico e composto
Mil vezes abro a boca... e nada digo

Só uma vez ousei interrogá-lo;
Quem és (lhe perguntei com grande abalo)
Fantasma a quem odeio e a quem amo?

-" Teus irmãos(respondeu) os humanos,
Chamam-me Deus há mais de mil anos...
Mas eu por mim não sei como me chamo..."

Antero De Quental

5.1.07

Noite de saudade

A noite vem poisando devagar
Sobre a Terra que inunda de amargura
E nem sequer a benção da lua
A quis tornar diurnamente pura...

Ninguém vem atrás dela a acompanhar
A sua dor,que é cheia de tortura...
E eu oiço a noite imensa soluçar!
E eu ouço soluçar a noite escura!

Porque és assim tão escura,assim tão triste?
É que,talvez ò noite,em ti existe
Uma saudade igual à que eu contenho!

Saudade que eu sei de onde me vem...
Talvez de ti ,ó noite!...Ou de ninguém!...
Que eu nunca sei quem sou,nem o que tenho.

Florbela Espanca " Sonetos"

21.12.06

You are welcome to elsinore

Entre nós e as palavras há metal fundente
wntre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas,que esperam por nós
e outras,frágeis,que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens,palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras,surdamente,
as mãos e as paredes de elsinore

E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras,os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

Mári Cesariny " Quinze poetas portugueses do séc. XX "

24.11.06

Se me amas não chores

Se conhecesses o mistério imenso do céu
onde agora vivo,este horizonte sem fim,
esta luz que tudo reveste e penetra,
não chorarias,se me amas!
Estou já absorvido no encanto de Deus,
na sua infindável beleza.
Permanece em mim o teu amor,uma
enorme ternura que nem tu consegues
imaginar.
Vivo num alegria puríssima.
Nas angústias do tempo pensa nesta casa
onde um dia estaremos reunidos para al´me
da morte,matando a sede na fonte
inesgotável da alegria e do amor infinito.
Não chores,se verdadeiramente me amas!

Santo Agostinho


Verdadeiramente bela esta oração...transmite-me muita paz e sossego

Depois da guerra

Depois da guerra vão nascer lírios nas pedras,
grandes lírios cor de sangue,belas rosas
desmaiadas.Depois da guerra vai haver fertelidade,
vai haver natalidade,vai haver felecidade(...)
Depois da guerra não haverá mais tristeza:todo o
mundo se abraçando num geral desarmamento(...)
No meio tempo,vamos dando tempo ao tempo,
tomando nosso chopinho,trabalhando p`ra família.
Se cada um ficar quieto no seu canto,fazendo as
coisas certinho,sem aturar desaforo,se cada um
tomar vergonha na cara,for p`ra guerra,for p`ra fila
com vontade e paciência-não é possível!esse
negócio melhora,porque ou eu muito me engano,
ou tudo isso não passa de um grande,de um
doloroso,e um atroz mal entendido!

Vinicius de Moraes " O poeta não tem fim"

15.10.06

Falar alto e sozinho.Ir pela rua,sozinho,falando com ninguém e com todos.Fazer parte do munod e estar só no mundo e chamar,em vão,pelo mundo.
Dizer-lhe as palavras precisas.Certas,esclarecedoras.
Únicas.Assim o homem que rompe a direito,concentrado e decisivo.~
-Não e não!
Não o quê?Não porquê? Será que os outros não sabem?
-ah!-reprova-se aquele velho.se eu voltasse atrás!...-e logo se encoraja-É sempre tempo para se fazer o que se deve!
Que foi que ele não fez?
-Fomos nós?-inquieta-se um outro que o ouviu-Fomos nós e ele que ainda o não fizemos?
Há também quem sorria dos que passam falando sozinhos.Maneira de escapar-se,de fugir aos problemas.
Sorrir e esquecer o que se ouve na rua é estar dormindo.
Não por muito tempo.um breve sono apenas.Os pesadelos do dia-a-dia crescem,sobem,afogam.
-Hão-de acabar por ouvir!-exclama aquele homem à beira do passeio.
Até os que vão calados falam.Pela forma de andar,pelos gestos,ouvem-se-lhes as palavras.E lá vão,entaipados,solitários na multidão.

António da Fonseca " Tempo de solidão"

Que diremos ainda?

Vê como de súbito o céu se fecha
sobre dunas e barcos,
e cada um de nós se volta e fixa
os olhos umno outro,
e como deles devagar escorre
a última luz sobre as areias.

Que diremos ainda?Serão palavras,
isto que aflora aos lábios?
Palavras,este rumor tão leve
que ouvimos o dia a desprender-se?
Palavras,ou luz ainda?

Palavras,não.Quem as sabia?
Foi apenas lembrança de outra luz.
Nem luz seria,apenas outro olhar.

Eugénio de Andrade " Quinze poetas portugueses do séc XX"

1.10.06

Caos temporal

Num dos caminhos da noite
em que a noite era branca como o dia
encontrei o caminho para fora
da noite.

De dia,no caminho que me fizera
sair da noite
como se fosse dia encontrei um dia escuro
como a noite.

Entre a noite e o dia
todos os caminhos são
iguais.Só os caminhos que tornam o dia
negro como a noite e a noite
branca como o dia
fazem com que o viajante
se perca.

A não ser que quem ande de dia
como de noite,e de noite
como de dia,não queira saber de
caminhos.

Nuno Júdice "Teoria geral do sentimento"

25.9.06

Viagens

já vai alta a noite,vejo o negro do céu,
deitado na areia,o teu corpo e o meu.
viajo com as mãos por entre as montanhas e os
rios,
e sinto nos meus lábios os teus doces e frios.

e voas sobre o mar,com as asas que eu te dou,
e dizes-me a cantar: " é assim que eu sou",
olhar para ti e ver o que eu vejo,
olhar-te nos olhos com olhares de desejo,
eu não tenho nada mais p´ra te dar,
esta vida são dois dias,
e um é para acordar,
das histórias de encantar
das histórias de encantar.

viagens que se perdem no tempo,
viagens sem princípio nem fim,
beijos entregues ao vento,
e amor em mares de cetim.
gestos que riscam o ar
e olhares que trazem solidão,
pedras e praias e o céu a bailar,
e os corpos que fogem do chão.

Pedro Abrunhosa e os Bandemónio " Viagens"

29.8.06

Depois de algum tempo aprendes a diferença, a subtil
diferença,
entre dar a mão e acorrentar uma alma.E aprendes que
amar não
significa apoiar-se,e que companhia nem sempre
significa segurança.E começas a aprender que beijos não são contratos, e presentes não são promessas.
(...) e não importa o quão boa seja uma pessoa,ela
vai ferir-te de vez em quando e precisas perdoá-la por
isso.Aprendes que falar pode aliviar dores
emocionais.Descobres que se leva anos para se
construir confiança e apenas segundos para
destruí-la,e que podes fazer coisas num instante,das
quais te arrependerás pelo resto da vida.Aprendes que
verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a
longas distâncias.E o que importa não é o que tu
tens na vida,mas quem tens na vida.(...)Descobres
que as pessoas com quem mais te importas na vida,são
tiradas de ti muito depressa;por isso,sempre devemos
deixar as pessoas que amamos com palavras amorosas;
pode ser a última vez que as vemos.(...)Aprendes
que paciência requer muita prática.(...)Aprendes que
quando estás com riava tens o direito de estar com
raiva,mas isso não dá o direito de seres cruel.
Aprendes que nem sempre é suficiente ser perdoado por
alguém.Algumas vezes,tens que aprender a
perdoar-te a ti mesmo.Aprendes que com a mesma
severidade com que julgas,tu serás em algum momento,
condenado.Aprendes que nao importa em quantos pedaços
teu coração foi partido,o mundo não pára para que o
consertes.E,finalmante,aprendes que o tempo,não é
algo que possa voltar para trás.Portanto,planta teu
jardim e decora tua alma,ao invés de esperar que
alguém te traga flores.E percebes que realmante és forte,e que podes
ir muito mais longe depois de pensar que não se pode
mais.E que realmente a vida tem valor,e que tu tens
valor diante da vida!(...)E só nos faz perder o
bem que poderíamos conquistar,o medo de tentar!

Shakespeare

20.7.06

Estoicismo

Tu que não crês,nem amas,nem esperas,
Espírito de eterna negação,
Teu hálito gelou-me o coração
E destroçou-me da alma as primaveras...

Atravessando regiões austeras,
Cheias de noite e cava escuridão,
Como num sonho mau,só ouço um não,
Que eternamente ecoa entre as esferas...

-Porque suspiras,porque te lamentas.
Cobarde coração?Debalde intentas
Opôr à sorte a queixa de egoísmo...

Deixa aos tímidos,deixa aos sonhadores
A esperança vã,seus vãos fulgores....
Sabe tu encarar sereno o abismo!

Antero de Quental " Sonetos"
a tua ausência é,em cada momento,a tua ausência
não esqueço que os teus lábios existem longe de mim.
aqui há casas vazias.há cidades desertas.há lugares.

mas eu lembro que o tempo é outra coisa,e tenho
tanta pena de perder um instante dos teus cabelos.

aqui não há palavras.há a tua ausência.há o medo sem os
teus lábios,sem os teus cabelos.fecho os olhos para te ver
e para não chorar.

José luís peixoto " A casa, a escuridão"


dedicado a um anjo que tenho a certeza que nunca mais vou ver na minha vida.
obrigada por tudo....e por me ajudares imenso neste capítulo que passou recentemente..
nunca esquecerei esses lindos olhos negros..
nunca te esquecerei..bj

9.7.06

Cheguei hoje, de repente a uma sensação absurda e justa.
Reparei, num relâmpago íntimo, que nã o sou ninguém.Ninguém,
absolutamnte ninguém.Quando brilhou o relâmpago,
aquilo onde supus uma cidade era um plaino deserto; e a luz
sinistra que me mostrou a mim não revelou céu acima dele.
Roubaram-me o poder ser antes que o mundo o fosse. Se tive
que reincarnar,reincarnei sem mim, sem eu ter reincarnado.

Sou os arredores de uma vila que não há,o comentário prolixo a um livro
que não se escreveu. Não sou ninguém,ninguém.Não sei sentir, nem pensar, não sei querer.
Sou uma figura de romance por escrever,passando aérea, e desfeita sem
ter sido, entre os sonhos de quem me não soube completar.

Penso sempre, sinto sempre; mas o meu pensamento não contém raciocínios, a minha emoção não contém emoções.Estou caindo, depois do alçapão lá em cima, por todo o espaço infinito, numa queda sem direcção,infinítupla e vazia.Minha alma é um maelstrom negro, vasta vertigem à roda de vácuo, movimento de um oceano infinito em torno de um buraco em nada,
e nas águas que são mais giro que águas bóiam todas as imagens do que vi e ouvi no mundo-
vão casas, caras, livros, caixotes, rastros de música e sílabas de vozes, num rodopio
sinistro e sem fundo.

E eu, verdadeiramnet eu, sou o centro que não há nisto
senão por uma geometria do abismo; sou o nada em torno do
qual este movimento gira,só para que gire, só para que gire, sem que esse centro
exista senão porque todo o círculo o tem.Eu, verdadeiramente eu, sou o poço sem muros, mas com a viscosidade dos muros, o centro de tudo com o nada à roda.

E é, em mim, como se o inferno ele mesmo risse, sem ao menos a humanidade de diabos a rirem, a loucura grasnada do universo morto, o cadáver rodante do espaço físico, o fim de todos os mundos flutuando negro ao vento, disforme, anacrónico, sem Deus que o houvesse criado, se, ele mesmo que está rodando nas trevas das trevas, impossível, único, tudo.

Poder saber pensar!Poder saber sentir!

Minha mãe morreu muito cedo, e eu não a cheguei a conhecer...

Bernardo Soares " Livro Do Desassossego"

18.6.06

Pois é........

este blog costuma ser um pouco impessoal porque normamente nao opino sobreo o que escrevo....mas hoje tenho uma notícia para dar que acho que devo partilhar com todos os que perdem um pouco do seu tempo para me visitar..
Ora bem..nem sei como começar.....
Sou bombeira nos bombeiros voluntários da póvoa de lanhoso.sempre quis fazer isto...mas só agora foi possível concretizar este sonho antigo.....
não sei porque estou a dizer isto..mas talvez por orgulho =) e um pouco de vaidade LOL.....
mas pronto..assim ficam a conhecer um pouco mais sobre o meu mundo tão ainda desconhecido para muitos de vós..
Bj*
MAKE LOVE...FUCK THE WAR
Aqui me tens inútil
cheia de palavras
perto de ti tão longe
mastigando todas as pétalas
dos teus crisântemos
afiando solos de violino
para me suicidar.

Descubro de novo as lágrimas
esquecidas no fundo das grutas
o trémulo grito do silêncio.

Anoiteço à procura dos dias
que as gaivotas beberam.

E a tua voz sem corpo
súbita e descuidada
enche-me as ancas de bagos de romã.

Rosa Lobato Faria " As pequenas palavras"

11.6.06

Out tonight

Today,i want to feel alive
I`ll try not to run
I`ll try not to hide.
Sometimes,i find myself looking
For something to belive,
Something to dream,can I ?
I want to go out tonight
I need to free my mind,
I want to be me,just me
Need to be free,just free
Tonight
Oh,time changed so many faces and places
I would like to go out and see what´s breaking
You left your name and number on a wall
At least you laughed the last time you called
I want to go out tonight,
I need to free my mind,
Want to be me,just me
Need to be free,just free
I want to say yea,yea,yeaeee
Tonight


ezspecial " in n `out"

1.6.06

todo o amor do mundo não foi suficiente porque o amor não serve
de nada.ficaram só
os papéis e a tristeza,ficou só a amargura e a cinza dos cigarros
e da morte.
os domingos e as noites que passámos a fazer planos não foram
suficientes e foram
demasiadas porque hoje são como sangue no teu rosto,são como
lágrimas.
sei que nos amamos muito e um dia,quando já não te encontro e em
cada instante,em cada hora,
não irei negar isso.não irei negar nunca que te amei.nem mesmo
quando estiver deitado
nu,sobre os lençois de outra e ela me obrigar a dizer que
a amo
antes de a foder.

José Luís Peixoto " A criança em ruínas"

Os olhos das crianças

Estes olhos vazios e brilhantes
que na criança se abrem para o mundo,
não amam,
não odeiam,
não sabem como a morte existe.
São terríveis.
Porque a vida é isto.

O amor, o medo, o ódio, a mesma morte,
e este desejo de possuir alguém,
os aprendemos.Nunca mais olhamos
com tal vazio dentro das pupilas.

São terríveis
Porque a vida é isto.

Jorge de Sena

Dedicatória a todas as crianças
por esse universo que estão sós...hoje é o seu dia

28.5.06

O jovem mágico

....
.... Basta ver os meus olhos nada sabemos de nós
a não ser que chegamos.
Sem uma luz a esconder-nos o rosto
belos e apavorados de estranhos casacos vestidos
altos de meter medo às aves de longo curso
nem há noites assim não há encontros
ao longo das enseadas
não há corpos amantes não há lugares de astros
sob tanto silêncio tão duradoura treva
e não me fales nunca eu sou surdo e não te oiço
eu vou nascer numa cidade futura
eu sei atravessar as fronteiras das coisas
olha para as minhas mãos que te pareço agora?
....

Mário Cesariny de Vasconcelos " Poesia"

11.5.06

A morte não é nada.Eu só passei para o quarto ao lado.
Eu sou eu,tu és tu,o que nós éramos uma para a outra,
nós o seremo sempre.
Chama-me como tu sempre me chamaste.
Fala comigo como sempre o fizeste
Não uses um tom diferente,não fiques com ar solene ou triste.
Continua a rir daquilo que nos fazia rir juntas.
Reza,ri-te,pensa em mim,reza por mim.
Que o meu nome seja pronunciado em casa como ele sempre foi,
sem um traço,sem uma sombra.
A vida significa tudo o que sempre significou.
Ela é o que sempre foi.O fio não está cortado!
Porque estarei eu fora de vista ?
Eu espero-te.Eu não estou longe.
Apenas dou outro lado do caminho,no quarto ao lado.
Como vês tudo está bem.

Desconhecido(encontrei este poema num dos meus apontamentos de uma cadeira da universidade-bioética..e achei fabulosa esta discrição da morte..essa que tantas vezes nos faz chorar)

28.4.06

Right now(i might fall down)

Tonight i feel that you`re alone
Waitinga sad inside inside your homeless soul
Where´s so cold
some words are to be said not to understand
Now you show me your regret and pain
but baby its all the same
Right now
You know you don´t want this game
I´m not saying you´re the one to blame
Please try to understand
Love me for real
And beg me for nothing,nothing at all
Don´t ask me to feel your shoes with my dancing
Sometimes i might fall down
When the winds are changing
And they´re changing
Right now
Baby i don´t want this game
I´m not saying you´re the one to blame
Your groove is not the same
I don´t know
What you´re looking for
I give you all i got
But you want more
Something i don´t feel
Love me for real
And beg me for notnhing,nothing at all
Don´t ask me to feel your shoes with my dancing
Sometimes i might fall down
When the winds are changing
And they´re changing
Right now

Blister "Without truth you are the loser"

20.4.06

"A nossa vida é composta em grande parte por sonhos. temos de encaminhá-los para a acção!" Faz com que os teus sonhos comecem a fazer parte da tua realidade acreditando neles com a maior força e nunca deixes de lutar por aquilo que tu acreditas!!! Fada*

Beijinho grande pa ra ti Sarinha..gosto muito de ti

19.4.06

Só para dizer que alterei o nome dos meus outros dois blogs
(caso ainda não saibam eu tenho mais dois blogs..
se a curiosidade vos incomodar podem ir a view my complete profile e tenho lá os outros).
Espero lá comentários ok ?
Já há algum tempo que George deixou de trazer-lhe
flores ou outros presentes.Actualmente,não há nada de
significativo que possa trazer do exterior para este quart;
nem mesmo ele próprio.Tudo o que lhe interessa agora
está aqui neste quarto,onde está absorvida no processo da
morte.Contudo, a sua preocupação não parece ego´sita;
não exclui George ou qualquer outra pessoa que se dê ao
trabalho de compartilhá-la.Esta preocupação é com a
morte, etodos nós podemos partilhá-la,em quaçquer altura,
em qualquer idade,doentes ou sãos.
George senta-se agora a seu lado e pega-lhe na mão.
Se o tivesse feito à dois dois meses atrás,ter-se-ia tratado de
um gesto terrivelmente falso./(Uma das suas recordações
mais amargas e vergonhosas tem a ver com uma vez em
que a beijou na face-foi uma agressão,um acto de
masochismo?Oh,raios partam todas estas palavras!-
exactamente depois de descobrir que ela fora para a cama
com Jim.Jim estava presente quando isso aconteceu.
Quando George se encaminhou para ela para a beijar,
Jim fez um ara espantado e assustado,como se receasse que
George fosse mordê-la como uma cobra.)Mas agora não
está a ser falso ao pegar na mão de Doris,nem mesmo
a cometer um acto de compaixão.É necessário-desco-
brui-o em visitas anteriores-a fim de estabelecer um
contacto mesmo que parcial.E ,ao pegar-lhe na mão,sen-
te-se embaraçado coma sua doença,pois esse gestes signi-
fica estamos no mesmo barco,em breve seguir-te-ei.Deste
modo estará desculpado pelo facto de ter de fazer aquelas
perguntas horríveis que se fazem aos doentes.Como está?
Como estão a correr as coisas?Como se sente?
Doris esboça um sorriso débil.Será poque lhe agrada
Que ele tenha vindo?

ISHERWOOD " Um Homem no singular"

9.4.06

Noite

Deixo atrás- o quê ? que sombras
vagas me perseguem ainda, como insectos que nenhuma treva
assusta ?Fujo! E as asas calcárias do louva-a-deus
colam-se-me às costas.Voo,agora,levando comigo
o fogo terrestre.Nenhum orizonte de ontem me poupará
o remorso de uma eternidade crepuscular: céus cinzentos
que entrevejo da esplanada branca do casino;o barco imóvel,
na enseada,apontando o nascente. E desço a escada
de pedra,com um lento rasto de caracol nocturno,
levando comigo a fúnebre notícia: " Ali,
onde um astro pousara o seu casco,deixando a luminosa
impressão de um fundo musical, os meus olhos beberam o último
brilho";e uma constelação de sais prendeu a sonâmbula
inspiração do vento.

Nuno Júdice "Obra Poética"

31.3.06

Antes que seja tarde

Amigo,
tu que choras uma angústia qualquer
e falas de coisas mansas como o luar
e paradas
como as águas de um lago adormecido,
acorda!
Deixa de vez
as margens do regato solitário
onde te miras
como se fosses a tua namorada.
Abandona o jardim sem flores
desse país inventado
onde tu és o único habitante.
Deixa os desejos sem rumo
de barco ao deus-dará
e esse ar de renúncia
às coisas do mundo.
Acorda,amigo,
liberta-te dessa paz podre de milagre
que existe
apenas na tua imaginação.
Abre os olhos e olha
abre os braços e luta!
Amigo,
antes da morte vir
nasce de vez para a vida.

Manuel da Fonseca " Poemas completos"

23.3.06

Pergunto-me quanta gente nesta cidade

Pergunto-me quanta gente nesta cidade
vive em apartamentos mobilados.
Altas horas da noite quando olho os outros prédios
juro que vejo um rosto em cada janela
que me olha também
e quando volto para dentro
pergunto-me quantos se sentam às suas escrivaninhas
e escrevem isto


Leonard Cohen " Filhos da neve"

12.3.06

Descrição de um lugar

Sou um reflexo no vidro.Olho-me
fixamente, e o poema capta-me nesta atitude.
Pudesse eu conhecer-me como se conhece
o poema...
Deixo um retrato de mim,morto,
há um ano por esta altura.Que me aconteceu,
entretanto?De quem é este corpo
que me é estranho pálido habitante de um movimento
indeciso e aparente?Quem sinto quando me toco,
quem me dorme,quem me pensa,
quem me escreve? O meu rosto enconbre um pronome.vivo
uma sintaxe corrupta no patamar marítimo
do mito.Quem me impede o sentimento?Quem me abre
um caminho que não sigo,condeno o outro
de mim próprio?
No entanto,estou aqui.Entre mim e o poema,
opaco a ambos,sem nada para dizer.

Nuno Júdice "Obra poética"

3.3.06

Olho-te e a morte ronda perto.Jogo com o tempo com essa presença que me assusta e atrai.Há em ti qualquer coisa de irremediável,de profundo desespero.

" O meu amanhã é a sombra.Corpo corrompido..Tenho medo da minha morte...."-disseste
Ouve:
Era uma vez um Homem que se queria renovado.
Era uma vez um Homem que se aturdia com mu«inutos tão cheios que não tinham ecos de relógio.E o ar juvenil,a adoração da mulher a dizê-lo vivo e belo e capaz...O Homem bebeu o mais que pode da seiva jovem,para provar a distância da morte.Por momentos,o homem cansado foi efebo e fauno,o homem doente foi gazela veloz,cavalo alado,grito de esperança.
Enternecedor esse sorriso de homem frágil,à procura do renascer.
Homem fugindo da evidência.

Maria graciette Bessse " Mulher sentada no silêncio"
Amei-te com as palavras
com o verde ramo das palavras
e a pomba assustada do coração.

Amei-te com os olhos
o espelho doido dos olhos
e a sede inextinguível da boca.

Amei-te com a pele
as pernas e os pés
e todos os gritos que trago
por debaixo da roupa.
Amei-te com as mãos
as mesmas com que te digo adeus.

Rosa Lobato Faria " As pequenas Palavras"
O silêncio não existe porque é o constante rumor de uma
inexistência.O que se ouve, para além do movimento da cidade,
é o monótono murmúrio do nada.Apenas sombra de nada,quem
nele procura um apelo ou uma resposta não os encontra ou
encontra um sinal negativo.Nada diz esse murmúrio nulo,que é
o eco inalterável do vazio do mundo,mas quem o ouve sente a
radicalidade da sua negação como se a cada momento nos
dissesse: Não há.

António Ramos Rosa "Relâmpago de nada"