6.3.07

O inconsciente

O espectro familiar que anda comigo,
Sem que pudesse ainda ver-lhe o rosto,
Que umas vezes encaro com desgosto
E outras muitas ansioso espreito e sigo,

É um espectro mudo, grave, antigo
Que parece a conversas mal disposto...
Ante esse vulto, ascélico e composto
Mil vezes abro a boca... e nada digo

Só uma vez ousei interrogá-lo;
Quem és (lhe perguntei com grande abalo)
Fantasma a quem odeio e a quem amo?

-" Teus irmãos(respondeu) os humanos,
Chamam-me Deus há mais de mil anos...
Mas eu por mim não sei como me chamo..."

Antero De Quental

5.1.07

Noite de saudade

A noite vem poisando devagar
Sobre a Terra que inunda de amargura
E nem sequer a benção da lua
A quis tornar diurnamente pura...

Ninguém vem atrás dela a acompanhar
A sua dor,que é cheia de tortura...
E eu oiço a noite imensa soluçar!
E eu ouço soluçar a noite escura!

Porque és assim tão escura,assim tão triste?
É que,talvez ò noite,em ti existe
Uma saudade igual à que eu contenho!

Saudade que eu sei de onde me vem...
Talvez de ti ,ó noite!...Ou de ninguém!...
Que eu nunca sei quem sou,nem o que tenho.

Florbela Espanca " Sonetos"

21.12.06

You are welcome to elsinore

Entre nós e as palavras há metal fundente
wntre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas,que esperam por nós
e outras,frágeis,que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens,palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras,surdamente,
as mãos e as paredes de elsinore

E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras,os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

Mári Cesariny " Quinze poetas portugueses do séc. XX "

24.11.06

Se me amas não chores

Se conhecesses o mistério imenso do céu
onde agora vivo,este horizonte sem fim,
esta luz que tudo reveste e penetra,
não chorarias,se me amas!
Estou já absorvido no encanto de Deus,
na sua infindável beleza.
Permanece em mim o teu amor,uma
enorme ternura que nem tu consegues
imaginar.
Vivo num alegria puríssima.
Nas angústias do tempo pensa nesta casa
onde um dia estaremos reunidos para al´me
da morte,matando a sede na fonte
inesgotável da alegria e do amor infinito.
Não chores,se verdadeiramente me amas!

Santo Agostinho


Verdadeiramente bela esta oração...transmite-me muita paz e sossego

Depois da guerra

Depois da guerra vão nascer lírios nas pedras,
grandes lírios cor de sangue,belas rosas
desmaiadas.Depois da guerra vai haver fertelidade,
vai haver natalidade,vai haver felecidade(...)
Depois da guerra não haverá mais tristeza:todo o
mundo se abraçando num geral desarmamento(...)
No meio tempo,vamos dando tempo ao tempo,
tomando nosso chopinho,trabalhando p`ra família.
Se cada um ficar quieto no seu canto,fazendo as
coisas certinho,sem aturar desaforo,se cada um
tomar vergonha na cara,for p`ra guerra,for p`ra fila
com vontade e paciência-não é possível!esse
negócio melhora,porque ou eu muito me engano,
ou tudo isso não passa de um grande,de um
doloroso,e um atroz mal entendido!

Vinicius de Moraes " O poeta não tem fim"

15.10.06

Falar alto e sozinho.Ir pela rua,sozinho,falando com ninguém e com todos.Fazer parte do munod e estar só no mundo e chamar,em vão,pelo mundo.
Dizer-lhe as palavras precisas.Certas,esclarecedoras.
Únicas.Assim o homem que rompe a direito,concentrado e decisivo.~
-Não e não!
Não o quê?Não porquê? Será que os outros não sabem?
-ah!-reprova-se aquele velho.se eu voltasse atrás!...-e logo se encoraja-É sempre tempo para se fazer o que se deve!
Que foi que ele não fez?
-Fomos nós?-inquieta-se um outro que o ouviu-Fomos nós e ele que ainda o não fizemos?
Há também quem sorria dos que passam falando sozinhos.Maneira de escapar-se,de fugir aos problemas.
Sorrir e esquecer o que se ouve na rua é estar dormindo.
Não por muito tempo.um breve sono apenas.Os pesadelos do dia-a-dia crescem,sobem,afogam.
-Hão-de acabar por ouvir!-exclama aquele homem à beira do passeio.
Até os que vão calados falam.Pela forma de andar,pelos gestos,ouvem-se-lhes as palavras.E lá vão,entaipados,solitários na multidão.

António da Fonseca " Tempo de solidão"

Que diremos ainda?

Vê como de súbito o céu se fecha
sobre dunas e barcos,
e cada um de nós se volta e fixa
os olhos umno outro,
e como deles devagar escorre
a última luz sobre as areias.

Que diremos ainda?Serão palavras,
isto que aflora aos lábios?
Palavras,este rumor tão leve
que ouvimos o dia a desprender-se?
Palavras,ou luz ainda?

Palavras,não.Quem as sabia?
Foi apenas lembrança de outra luz.
Nem luz seria,apenas outro olhar.

Eugénio de Andrade " Quinze poetas portugueses do séc XX"

1.10.06

Caos temporal

Num dos caminhos da noite
em que a noite era branca como o dia
encontrei o caminho para fora
da noite.

De dia,no caminho que me fizera
sair da noite
como se fosse dia encontrei um dia escuro
como a noite.

Entre a noite e o dia
todos os caminhos são
iguais.Só os caminhos que tornam o dia
negro como a noite e a noite
branca como o dia
fazem com que o viajante
se perca.

A não ser que quem ande de dia
como de noite,e de noite
como de dia,não queira saber de
caminhos.

Nuno Júdice "Teoria geral do sentimento"

25.9.06

Viagens

já vai alta a noite,vejo o negro do céu,
deitado na areia,o teu corpo e o meu.
viajo com as mãos por entre as montanhas e os
rios,
e sinto nos meus lábios os teus doces e frios.

e voas sobre o mar,com as asas que eu te dou,
e dizes-me a cantar: " é assim que eu sou",
olhar para ti e ver o que eu vejo,
olhar-te nos olhos com olhares de desejo,
eu não tenho nada mais p´ra te dar,
esta vida são dois dias,
e um é para acordar,
das histórias de encantar
das histórias de encantar.

viagens que se perdem no tempo,
viagens sem princípio nem fim,
beijos entregues ao vento,
e amor em mares de cetim.
gestos que riscam o ar
e olhares que trazem solidão,
pedras e praias e o céu a bailar,
e os corpos que fogem do chão.

Pedro Abrunhosa e os Bandemónio " Viagens"

29.8.06

Depois de algum tempo aprendes a diferença, a subtil
diferença,
entre dar a mão e acorrentar uma alma.E aprendes que
amar não
significa apoiar-se,e que companhia nem sempre
significa segurança.E começas a aprender que beijos não são contratos, e presentes não são promessas.
(...) e não importa o quão boa seja uma pessoa,ela
vai ferir-te de vez em quando e precisas perdoá-la por
isso.Aprendes que falar pode aliviar dores
emocionais.Descobres que se leva anos para se
construir confiança e apenas segundos para
destruí-la,e que podes fazer coisas num instante,das
quais te arrependerás pelo resto da vida.Aprendes que
verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a
longas distâncias.E o que importa não é o que tu
tens na vida,mas quem tens na vida.(...)Descobres
que as pessoas com quem mais te importas na vida,são
tiradas de ti muito depressa;por isso,sempre devemos
deixar as pessoas que amamos com palavras amorosas;
pode ser a última vez que as vemos.(...)Aprendes
que paciência requer muita prática.(...)Aprendes que
quando estás com riava tens o direito de estar com
raiva,mas isso não dá o direito de seres cruel.
Aprendes que nem sempre é suficiente ser perdoado por
alguém.Algumas vezes,tens que aprender a
perdoar-te a ti mesmo.Aprendes que com a mesma
severidade com que julgas,tu serás em algum momento,
condenado.Aprendes que nao importa em quantos pedaços
teu coração foi partido,o mundo não pára para que o
consertes.E,finalmante,aprendes que o tempo,não é
algo que possa voltar para trás.Portanto,planta teu
jardim e decora tua alma,ao invés de esperar que
alguém te traga flores.E percebes que realmante és forte,e que podes
ir muito mais longe depois de pensar que não se pode
mais.E que realmente a vida tem valor,e que tu tens
valor diante da vida!(...)E só nos faz perder o
bem que poderíamos conquistar,o medo de tentar!

Shakespeare

20.7.06

Estoicismo

Tu que não crês,nem amas,nem esperas,
Espírito de eterna negação,
Teu hálito gelou-me o coração
E destroçou-me da alma as primaveras...

Atravessando regiões austeras,
Cheias de noite e cava escuridão,
Como num sonho mau,só ouço um não,
Que eternamente ecoa entre as esferas...

-Porque suspiras,porque te lamentas.
Cobarde coração?Debalde intentas
Opôr à sorte a queixa de egoísmo...

Deixa aos tímidos,deixa aos sonhadores
A esperança vã,seus vãos fulgores....
Sabe tu encarar sereno o abismo!

Antero de Quental " Sonetos"
a tua ausência é,em cada momento,a tua ausência
não esqueço que os teus lábios existem longe de mim.
aqui há casas vazias.há cidades desertas.há lugares.

mas eu lembro que o tempo é outra coisa,e tenho
tanta pena de perder um instante dos teus cabelos.

aqui não há palavras.há a tua ausência.há o medo sem os
teus lábios,sem os teus cabelos.fecho os olhos para te ver
e para não chorar.

José luís peixoto " A casa, a escuridão"


dedicado a um anjo que tenho a certeza que nunca mais vou ver na minha vida.
obrigada por tudo....e por me ajudares imenso neste capítulo que passou recentemente..
nunca esquecerei esses lindos olhos negros..
nunca te esquecerei..bj

9.7.06

Cheguei hoje, de repente a uma sensação absurda e justa.
Reparei, num relâmpago íntimo, que nã o sou ninguém.Ninguém,
absolutamnte ninguém.Quando brilhou o relâmpago,
aquilo onde supus uma cidade era um plaino deserto; e a luz
sinistra que me mostrou a mim não revelou céu acima dele.
Roubaram-me o poder ser antes que o mundo o fosse. Se tive
que reincarnar,reincarnei sem mim, sem eu ter reincarnado.

Sou os arredores de uma vila que não há,o comentário prolixo a um livro
que não se escreveu. Não sou ninguém,ninguém.Não sei sentir, nem pensar, não sei querer.
Sou uma figura de romance por escrever,passando aérea, e desfeita sem
ter sido, entre os sonhos de quem me não soube completar.

Penso sempre, sinto sempre; mas o meu pensamento não contém raciocínios, a minha emoção não contém emoções.Estou caindo, depois do alçapão lá em cima, por todo o espaço infinito, numa queda sem direcção,infinítupla e vazia.Minha alma é um maelstrom negro, vasta vertigem à roda de vácuo, movimento de um oceano infinito em torno de um buraco em nada,
e nas águas que são mais giro que águas bóiam todas as imagens do que vi e ouvi no mundo-
vão casas, caras, livros, caixotes, rastros de música e sílabas de vozes, num rodopio
sinistro e sem fundo.

E eu, verdadeiramnet eu, sou o centro que não há nisto
senão por uma geometria do abismo; sou o nada em torno do
qual este movimento gira,só para que gire, só para que gire, sem que esse centro
exista senão porque todo o círculo o tem.Eu, verdadeiramente eu, sou o poço sem muros, mas com a viscosidade dos muros, o centro de tudo com o nada à roda.

E é, em mim, como se o inferno ele mesmo risse, sem ao menos a humanidade de diabos a rirem, a loucura grasnada do universo morto, o cadáver rodante do espaço físico, o fim de todos os mundos flutuando negro ao vento, disforme, anacrónico, sem Deus que o houvesse criado, se, ele mesmo que está rodando nas trevas das trevas, impossível, único, tudo.

Poder saber pensar!Poder saber sentir!

Minha mãe morreu muito cedo, e eu não a cheguei a conhecer...

Bernardo Soares " Livro Do Desassossego"

18.6.06

Pois é........

este blog costuma ser um pouco impessoal porque normamente nao opino sobreo o que escrevo....mas hoje tenho uma notícia para dar que acho que devo partilhar com todos os que perdem um pouco do seu tempo para me visitar..
Ora bem..nem sei como começar.....
Sou bombeira nos bombeiros voluntários da póvoa de lanhoso.sempre quis fazer isto...mas só agora foi possível concretizar este sonho antigo.....
não sei porque estou a dizer isto..mas talvez por orgulho =) e um pouco de vaidade LOL.....
mas pronto..assim ficam a conhecer um pouco mais sobre o meu mundo tão ainda desconhecido para muitos de vós..
Bj*
MAKE LOVE...FUCK THE WAR
Aqui me tens inútil
cheia de palavras
perto de ti tão longe
mastigando todas as pétalas
dos teus crisântemos
afiando solos de violino
para me suicidar.

Descubro de novo as lágrimas
esquecidas no fundo das grutas
o trémulo grito do silêncio.

Anoiteço à procura dos dias
que as gaivotas beberam.

E a tua voz sem corpo
súbita e descuidada
enche-me as ancas de bagos de romã.

Rosa Lobato Faria " As pequenas palavras"

11.6.06

Out tonight

Today,i want to feel alive
I`ll try not to run
I`ll try not to hide.
Sometimes,i find myself looking
For something to belive,
Something to dream,can I ?
I want to go out tonight
I need to free my mind,
I want to be me,just me
Need to be free,just free
Tonight
Oh,time changed so many faces and places
I would like to go out and see what´s breaking
You left your name and number on a wall
At least you laughed the last time you called
I want to go out tonight,
I need to free my mind,
Want to be me,just me
Need to be free,just free
I want to say yea,yea,yeaeee
Tonight


ezspecial " in n `out"

1.6.06

todo o amor do mundo não foi suficiente porque o amor não serve
de nada.ficaram só
os papéis e a tristeza,ficou só a amargura e a cinza dos cigarros
e da morte.
os domingos e as noites que passámos a fazer planos não foram
suficientes e foram
demasiadas porque hoje são como sangue no teu rosto,são como
lágrimas.
sei que nos amamos muito e um dia,quando já não te encontro e em
cada instante,em cada hora,
não irei negar isso.não irei negar nunca que te amei.nem mesmo
quando estiver deitado
nu,sobre os lençois de outra e ela me obrigar a dizer que
a amo
antes de a foder.

José Luís Peixoto " A criança em ruínas"

Os olhos das crianças

Estes olhos vazios e brilhantes
que na criança se abrem para o mundo,
não amam,
não odeiam,
não sabem como a morte existe.
São terríveis.
Porque a vida é isto.

O amor, o medo, o ódio, a mesma morte,
e este desejo de possuir alguém,
os aprendemos.Nunca mais olhamos
com tal vazio dentro das pupilas.

São terríveis
Porque a vida é isto.

Jorge de Sena

Dedicatória a todas as crianças
por esse universo que estão sós...hoje é o seu dia

28.5.06

O jovem mágico

....
.... Basta ver os meus olhos nada sabemos de nós
a não ser que chegamos.
Sem uma luz a esconder-nos o rosto
belos e apavorados de estranhos casacos vestidos
altos de meter medo às aves de longo curso
nem há noites assim não há encontros
ao longo das enseadas
não há corpos amantes não há lugares de astros
sob tanto silêncio tão duradoura treva
e não me fales nunca eu sou surdo e não te oiço
eu vou nascer numa cidade futura
eu sei atravessar as fronteiras das coisas
olha para as minhas mãos que te pareço agora?
....

Mário Cesariny de Vasconcelos " Poesia"

11.5.06

A morte não é nada.Eu só passei para o quarto ao lado.
Eu sou eu,tu és tu,o que nós éramos uma para a outra,
nós o seremo sempre.
Chama-me como tu sempre me chamaste.
Fala comigo como sempre o fizeste
Não uses um tom diferente,não fiques com ar solene ou triste.
Continua a rir daquilo que nos fazia rir juntas.
Reza,ri-te,pensa em mim,reza por mim.
Que o meu nome seja pronunciado em casa como ele sempre foi,
sem um traço,sem uma sombra.
A vida significa tudo o que sempre significou.
Ela é o que sempre foi.O fio não está cortado!
Porque estarei eu fora de vista ?
Eu espero-te.Eu não estou longe.
Apenas dou outro lado do caminho,no quarto ao lado.
Como vês tudo está bem.

Desconhecido(encontrei este poema num dos meus apontamentos de uma cadeira da universidade-bioética..e achei fabulosa esta discrição da morte..essa que tantas vezes nos faz chorar)