2.10.07

Boa Sorte / Good Luck


É só isso
Não tem mais jeito
Acabou, boa sorte

Não tenho o que dizer
São só palavras
E o que eu sinto
Não mudará

Tudo o que quer me dar
É demais
É pesado
Não há paz

Tudo o que quer de mim
Irreais
Expectativas
Desleais

That’s it
There's no way
It's over,
Good luck

I have nothing left to say
It’s only words
And what l feel
Won’t change

Tudo
o que quer me dar / Everything you want to give me
É demais / It's too much
É pesado / It’s heavy
Não há paz / There is no peace

Tudo o que quer de mim / All you want from me
Irreais / Isn’t real
Expectativas / that Expectations
Desleais

medo, se segure
Quero que se cure
Dessa pessoa
Que o aconselha

Há um desencontro
Veja por esse
Há tantas pessoas especiais

Now even if you hold yourself
I want you to get cured
From this person
Who advises you

There is a disconnection
See through this point of view
There are so many special people in the world
So many special people in the world in the world
All you want
All you want

Tudo o que quer me dar / Everything you want to give me
É demais / It's too much
É pesado / It’s heavy
Não há paz / There's no peace

Tudo o que quer de mim / All you want from me
Irreais / isn’t real
Expectativas / that Expectations
Desleais


Vanessa da Mata/ Ben Harper

27.9.07


E mesmo sem te ver

Acho até que estou indo bem

Só apareço, por assim dizer

Quando convém aparecer

Ou quando quero
Quando quero

Desenho toda a calçada

Acaba o giz, tem tijolo de construção

Eu rabisco o sol que a chuva apagou

Quero que saibas que me lembro

Queria até que pudesses me ver

És parte ainda do que me faz forte

Pra ser honesto

Só um pouquinho infeliz

Mas tudo bem

Tudo bem, tudo bem...

Lá vem, lá vem, lá vem

De novo

Acho que estou gostando de alguém

E é de ti que não me esquecerei

Está tudo bem, tudo bem...

26.9.07


Não me arrependo das horas que perdi a esperar-te
Quando ainda havia a esperança. A esperança que
Havia ainda quando, a esperar-te, perdi horas de que
Não me arrependo.

Um instante na memória de chegares é mais valioso
Do que jardins. Do que montanhas. Do que anos de
Tempo.

Arrependo-me de ficar ao sol, de sorrir, de esquecer
Que devagar passam os dias. Os dias passam devagar,
Esquecendo-se de sorrir ao sol e de ficar onde me
Arrependo.
José Luís Peixoto "A casa, a escuridão"

1.9.07

Quanto de ti, Amor...

Quanto de ti, amor, me possuiu no abraço
em que de penetrar-te me senti perdido
no ter-te para sempre -
Quanto de ter-te me possui em tudo
o que eu deseje ou veja não pensando em ti
no abraço a que me entrego -
Quanto de entrega é como um rosto aberto,
sem olhos e sem boca, só expressão dorida
de quem é como a morte -
Quanto de morte recebi de ti,
na pura perda de possuir-te em vão
de amor que nos traiu -
Quanta traição existe em possuir-se a gente
sem conhecer que o corpo não conhece
mais que o sentir-se noutro -
Quanto sentir-te e me sentires não foi
senão o encontro eterno que nenhuma imagem
jamais separará -
Quanto de separados viveremos noutros
esse momento que nos mata para
quem não nos seja e só -
Quanto de solidão é este estar-se em tudo
como na auséncia indestrutível que
nos faz ser um no outro -
Quanto de ser-se ou se não ser o outro
é para sempre a única certeza
que nos confina em vida -
Quanto de vida consumimos pura
no horror e na miséria de, possuindo, sermos
a terra que outros pisam -
Oh meu amor, de ti, por ti, e para ti,
recebo gratamente como se recebe
não a morte ou a vida, mas a descoberta
de nada haver onde um de nós não esteja.



Jorge de Sena
in Visão PerpétuaAgosto 1967
Dentro dos teus olhos, há o brilho onde nascem as respostas, mas não vou perguntar-te nada. Tenho medo de que a minha voz te faça desaparecer de novo. O silêncio é o lugar onde os nossos olhares se encontram.
Não vou perguntar-te nada.

José Luís Peixoto " Antídoto"

7.8.07

Traição

De cansado, parei – por ser humano.
Descansar um momento na subida.
Desde a pele ao tutano
Da alma,
Do mais fundo da vida,
Tudo pedia a calma
Duma pausa na curva do caminho.
Mas bebido o carinho
Duma fonte,
E vestida a frescura
Duma sombra,
Foi um cilício a mais que me picou.
Muito longe de mim, também carne humana,
Seguia a corajosa caravana
Que nenhum desespero demorou.


Miguel Torga " Cântico do Homem"
Gosto de coisas tristes mas contentes. Não disse isto, desculpa, o que quero dizer é que gosto de coisas felizes, mas tristes. Ora, “a mesma coisa”, dirás! Talvez, mas o que te quero revelar é que sinto que sempre gostei de chorar quando estou alegre. A tristeza mais bela de todas é a felicidade com lágrimas nos olhos.




A minha paixão por ti é eu ser órfão, viver num reformatório e esperar pela visita de alguém que me tire dali.
….
E mesmo quieto, estou aos saltos cá dentro quando te vejo, mesmo mudo, estou a gritar para que me leves daqui.



Fernando Alvim " Quando fugimos tu não estavas em casa"

3.5.07

Ausência

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos
(que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres
(eternamente exausto
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a
(tua voz.

Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como um nódoa do passado.
Eu deixarei...tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu,
(porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos
(no espaço

E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono
(desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos.
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar,do vento,do céu,das aves,das estrelas
Serão a tua voz presente,a tua voz ausente,a tua voz serenizada.


Vinicius de Moraes " O poeta não tem fim"

19.4.07

Hoje acordámos em sítios diferentes

Eu, no meio das ruínas que se movem, das sombras que sopram, das
almas em fuga para dentro da vida.

Tu, no meio das ruínas paradas, das sombras que já não respiram,
das almas em fuga para longe da vida.

Amanhã, sempre amanhã,tentaremos acordar no mesmo sítio de
sempre e o abismo do medo e da dor irá rir-se de nós enquanto nos
engole ou deixa passar.


Fernando Ribeiro " As feridas essenciais"

Cinco palavras Cinco pedras

Antigamente escrevia poemas compridos
Hoje tenho quatro palavras para fazer um poema
São elas: desalento prostação desolação desânimo
E ainda me esquecia de uma: desistência
Ocorreu-me antes do fecho do poema
e em parte resume o que penso da vida
passado o dia oito em cada mês
e delas vem a música precisa
para continuar.Recapitulo:
desistência desalento prostação desolação desânimo
Antigamente quando os deuses eram grandes
eu sempre dispunha de muitos versos
Hoje só tenho cinco palavras cinco pedrinhas


Ruy Belo " Todos os poemas Vol. I"

6.3.07

O inconsciente

O espectro familiar que anda comigo,
Sem que pudesse ainda ver-lhe o rosto,
Que umas vezes encaro com desgosto
E outras muitas ansioso espreito e sigo,

É um espectro mudo, grave, antigo
Que parece a conversas mal disposto...
Ante esse vulto, ascélico e composto
Mil vezes abro a boca... e nada digo

Só uma vez ousei interrogá-lo;
Quem és (lhe perguntei com grande abalo)
Fantasma a quem odeio e a quem amo?

-" Teus irmãos(respondeu) os humanos,
Chamam-me Deus há mais de mil anos...
Mas eu por mim não sei como me chamo..."

Antero De Quental

5.1.07

Noite de saudade

A noite vem poisando devagar
Sobre a Terra que inunda de amargura
E nem sequer a benção da lua
A quis tornar diurnamente pura...

Ninguém vem atrás dela a acompanhar
A sua dor,que é cheia de tortura...
E eu oiço a noite imensa soluçar!
E eu ouço soluçar a noite escura!

Porque és assim tão escura,assim tão triste?
É que,talvez ò noite,em ti existe
Uma saudade igual à que eu contenho!

Saudade que eu sei de onde me vem...
Talvez de ti ,ó noite!...Ou de ninguém!...
Que eu nunca sei quem sou,nem o que tenho.

Florbela Espanca " Sonetos"

21.12.06

You are welcome to elsinore

Entre nós e as palavras há metal fundente
wntre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas,que esperam por nós
e outras,frágeis,que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens,palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras,surdamente,
as mãos e as paredes de elsinore

E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras,os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

Mári Cesariny " Quinze poetas portugueses do séc. XX "

24.11.06

Se me amas não chores

Se conhecesses o mistério imenso do céu
onde agora vivo,este horizonte sem fim,
esta luz que tudo reveste e penetra,
não chorarias,se me amas!
Estou já absorvido no encanto de Deus,
na sua infindável beleza.
Permanece em mim o teu amor,uma
enorme ternura que nem tu consegues
imaginar.
Vivo num alegria puríssima.
Nas angústias do tempo pensa nesta casa
onde um dia estaremos reunidos para al´me
da morte,matando a sede na fonte
inesgotável da alegria e do amor infinito.
Não chores,se verdadeiramente me amas!

Santo Agostinho


Verdadeiramente bela esta oração...transmite-me muita paz e sossego

Depois da guerra

Depois da guerra vão nascer lírios nas pedras,
grandes lírios cor de sangue,belas rosas
desmaiadas.Depois da guerra vai haver fertelidade,
vai haver natalidade,vai haver felecidade(...)
Depois da guerra não haverá mais tristeza:todo o
mundo se abraçando num geral desarmamento(...)
No meio tempo,vamos dando tempo ao tempo,
tomando nosso chopinho,trabalhando p`ra família.
Se cada um ficar quieto no seu canto,fazendo as
coisas certinho,sem aturar desaforo,se cada um
tomar vergonha na cara,for p`ra guerra,for p`ra fila
com vontade e paciência-não é possível!esse
negócio melhora,porque ou eu muito me engano,
ou tudo isso não passa de um grande,de um
doloroso,e um atroz mal entendido!

Vinicius de Moraes " O poeta não tem fim"

15.10.06

Falar alto e sozinho.Ir pela rua,sozinho,falando com ninguém e com todos.Fazer parte do munod e estar só no mundo e chamar,em vão,pelo mundo.
Dizer-lhe as palavras precisas.Certas,esclarecedoras.
Únicas.Assim o homem que rompe a direito,concentrado e decisivo.~
-Não e não!
Não o quê?Não porquê? Será que os outros não sabem?
-ah!-reprova-se aquele velho.se eu voltasse atrás!...-e logo se encoraja-É sempre tempo para se fazer o que se deve!
Que foi que ele não fez?
-Fomos nós?-inquieta-se um outro que o ouviu-Fomos nós e ele que ainda o não fizemos?
Há também quem sorria dos que passam falando sozinhos.Maneira de escapar-se,de fugir aos problemas.
Sorrir e esquecer o que se ouve na rua é estar dormindo.
Não por muito tempo.um breve sono apenas.Os pesadelos do dia-a-dia crescem,sobem,afogam.
-Hão-de acabar por ouvir!-exclama aquele homem à beira do passeio.
Até os que vão calados falam.Pela forma de andar,pelos gestos,ouvem-se-lhes as palavras.E lá vão,entaipados,solitários na multidão.

António da Fonseca " Tempo de solidão"

Que diremos ainda?

Vê como de súbito o céu se fecha
sobre dunas e barcos,
e cada um de nós se volta e fixa
os olhos umno outro,
e como deles devagar escorre
a última luz sobre as areias.

Que diremos ainda?Serão palavras,
isto que aflora aos lábios?
Palavras,este rumor tão leve
que ouvimos o dia a desprender-se?
Palavras,ou luz ainda?

Palavras,não.Quem as sabia?
Foi apenas lembrança de outra luz.
Nem luz seria,apenas outro olhar.

Eugénio de Andrade " Quinze poetas portugueses do séc XX"

1.10.06

Caos temporal

Num dos caminhos da noite
em que a noite era branca como o dia
encontrei o caminho para fora
da noite.

De dia,no caminho que me fizera
sair da noite
como se fosse dia encontrei um dia escuro
como a noite.

Entre a noite e o dia
todos os caminhos são
iguais.Só os caminhos que tornam o dia
negro como a noite e a noite
branca como o dia
fazem com que o viajante
se perca.

A não ser que quem ande de dia
como de noite,e de noite
como de dia,não queira saber de
caminhos.

Nuno Júdice "Teoria geral do sentimento"

25.9.06

Viagens

já vai alta a noite,vejo o negro do céu,
deitado na areia,o teu corpo e o meu.
viajo com as mãos por entre as montanhas e os
rios,
e sinto nos meus lábios os teus doces e frios.

e voas sobre o mar,com as asas que eu te dou,
e dizes-me a cantar: " é assim que eu sou",
olhar para ti e ver o que eu vejo,
olhar-te nos olhos com olhares de desejo,
eu não tenho nada mais p´ra te dar,
esta vida são dois dias,
e um é para acordar,
das histórias de encantar
das histórias de encantar.

viagens que se perdem no tempo,
viagens sem princípio nem fim,
beijos entregues ao vento,
e amor em mares de cetim.
gestos que riscam o ar
e olhares que trazem solidão,
pedras e praias e o céu a bailar,
e os corpos que fogem do chão.

Pedro Abrunhosa e os Bandemónio " Viagens"